Um dia, ela desejou ter sonhado com borboletas amarelas.Ela acreditava que ao cruzar o seu caminho com uma, nada de ruim poderia lhe ocorrer. Acreditava que borboletas amarelas além de mágicas, eram também sábias.
Bastava aproximar bem os ouvidos de seu bater de asas para capturar os melhores conselhos nunca ditos antes por qualquer ser humano que fosse, mesmo os de alto QI, ou aqueles que se dizem especialistas de algo.A verdade, é que as borboletas amarelas sabem de canções antigas, de quando o mundo ainda não era o mundo como conhecemos hoje.
Havia apenas dinossauros e borboletas amarelas que dançavam ao som dessas canções oníricas.Engana-se, portanto, quem acha que os seres mais antigos que habitaram o planeta terra foram dinossauros ou ornitorrincos: foram borboletas amarelas!Essas canções antigas eram sopradas pelos ventos dos penhascos mais altos de quando o mundo ainda não era mundo.
Canções doces e melódicas que encorajavam as borboletas a passarem sobrevoando pelo vazio desses espaços abissais.Assim, as borboletas dançavam sobre esses ausências e bradavam junto com as nuvens de que a única certeza é a incerteza, que o frio na barriga só acontece para os seres que desejam, que o desejo é como um pudim macio e furadinho, que o molhado do mamão é diferente do molhado da melancia.
Que o penhasco não é um convite ao desespero, mas um convite à sedução e à aceitação do vazio inevitável, que os dentes caem quando somos crianças e depois, quando somos velhos, que tudo só existe na mente e que a mente é o todo.Esse foi o sussurro de uma borboleta amarela num dia qualquer – que de qualquer não tinha nada –, quando ela decidiu que queria sonhar com borboletas amarelas.