O cruzamento das ruas. Encontro duro, do concreto, o reboque mal feito. O pixo que nunca secou e permanece exalando um cheiro. Cheiro. Cheiro esse que misturado entre tantos outros do cerne anuviado de São Paulo é como se não existisse. Apesar da estranheza que paira. É como se não existisse, porque toma conta de toda a realidade. Respirar é senti-lo, é deparar-se com ele inevitavelmente. Também inebriados por ele, Existem outros seres que pairam no cheiro pairado. Airado. Flutuam e levitam em meio a algumas poucas árvores que restam para contrastar com os cruzamentos duros, de concreto. Moscas varejeiras. De um verde estonteante e inebriante, tão inebriante quanto o cheiro em que pairam os seres pairados. Um verde tão reluzente que mascara sua identidade inóspita, suja e seca. É nisso que reside o fato de serem tão contraditoriamente interessantes. Desclassificadas de qualquer classificação ou taxonomia. Pairam e levitam como seres místicos que sempre estiveram lá. Pairando. Observando com seus olhos de vidro o não-vidro das coisas que as cercam, o orgânico que aputrece em seu entorno. Vivem, além do pairar, para nutrir-se do que apodrece, seco, do asfalto e do que (des)brota dele. Um verde inebriante e vivaz que paira sobre tudo que morre, tudo que deixa eternamente de viver. Talvez, meu fascínio por esses seres, tanto místicos como putrefados, se de justamente por me identificar com o interesse pelo o que não tem mais vida. Pelo o que já deixou de pulsar - ou pelo que nunca tenha, de fato, pulsado. Um interesse por tentar reanimar as pulsações cardíacas, pairando sobre o que não resta mais vida. (Já restou um dia?) Resta-me a dura realização de que é preciso pairar também sobre a possibilidade do broto. Insistir no que morre, no que esta morto, sem vida, seco e caquético, só pode exalar cheiros de pixo seco.