top of page

morar em casa me ensinou a não ter medo de baratas, pelo contrário: quando vejo uma e a mato, me sinto como a Clarice, e, de repente, começo a devanear sobre o invisível, sobre tudo o que não sou e quero ser.

saio da batalha mais forte e confiante da vida.

se eu mato você, barata.

então tudo posso fazer.

quer dizer, quase tudo.

rapidamente lembro da angústia que vive dobrando à esquerda, dentro do meu trato intestinal.

eu e angústia, a gente conversa sobre baratas.

digo a ela: por favor, seja menor que uma barata e do mesmo material plástico, talvez assim possamos conviver numa desarmonia melhor.

às vezes ela me ouve. e paro de escutá-la por alguns bons dias.

às vezes, ela se irrita e o barulho fica ensurdecedor: uma verdadeira cacofonia intestinal.

bottom of page